Resumo
Introdução: a infecção por Bartonella henselae manifesta-se tipicamente com febre e linfadenopatia regional subaguda. No entanto, 5% a 25% dos pacientes desenvolvem formas atípicas, como a neurorretinite.
Relato de Caso: criança de 8 anos, previamente hígida, consultou por diminuição da acuidade visual no olho direito (OD) com uma semana de evolução. Negava dor ocular, cefaleia e febre. A acuidade visual sem correção (AVSC) era de 4/10 no OD e 10/10 no olho esquerdo (OE); a fundoscopia do OD revelou edema de papila com predominância inferior, tortuosidade vascular e vítreo livre. As sorologias para citomegalovírus, rubéola, toxoplasmose e sífilis foram negativas. A ressonância magnética de crânio demonstrou protrusão do disco óptico à direita. Após 48 horas da internação, mantinha diminuição da acuidade visual, e o exame de fundo de olho no OD evidenciou edema de papila, vasos tortuosos, dobras maculares radiais, focos de retinite, embainhamento vascular periférico e estrela macular em formação. Suspeitou-se de provável neurorretinite por B. henselae, identificando-se histórico de contato frequente com filhotes de gato. A sorologia para B. henselae IgG e IgM foi reativa (títulos ≥ 1:1024). Iniciou-se tratamento com doxiciclina e rifampicina. Diante da melhora parcial, indicou-se completar seis semanas de antibioticoterapia. O paciente apresentou boa evolução, atingindo AVSC de 10/10 no OD três semanas após o início do tratamento.
Conclusões: o comprometimento ocular por B. henselae pode ocorrer por via sistêmica ou inoculação conjuntival. A neurorretinite afeta 1% a 2% dos pacientes; o diagnóstico é clínico-epidemiológico e confirmado por exames laboratoriais. O tratamento em imunocompetentes permanece controverso. Em pacientes que consultam por diminuição da acuidade visual, é fundamental realizar uma anamnese detalhada — investigando o histórico de contato com gatos — e um exame oftalmológico minucioso para o correto diagnóstico e posterior tratamento da doença.
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